Acabo de ler “What to make of a life”, o livro mais recente de Jim Collins, autor conhecido por “Good to great” e “Built to last”.
Bem como ouvi neste final de semana o episódio mais recente do podcast “Worklife”, de Molly Graham, no qual ela entrevista Chip Conley, numa conversa intitulada “How to survive a life quake” (Como sobreviver a um terremoto de vida). As duas referências de conteúdo me inspiraram para este artigo de hoje.
“What to make of a life” foi publicado em abril deste ano, um livro que é o resultado de dez anos de pesquisa de Jim Collins, no qual ele estudou 34 personagens de áreas diversas – músicos, atletas, políticos, cientistas, escritores – e os agrupou em pares comparados, seguindo a mesma metodologia de “Good to Great”, mas aplicando o modelo a pessoas em vez de empresas. Collins nos provoca a pensar no que queremos – e podemos – fazer na segunda metade da vida, seja em novas carreiras ou novos caminhos. Seus argumentos centrais:
1. Codificações: todos temos uma constelação de capacidades e talentos intrínsecos, que vão sendo descobertos ao longo da vida, não como habilidades treinadas, mas como uma espécie de código de potencial.
2. Circunstâncias: as tais codificações não bastam, é preciso viver as circunstâncias que as ativam. Não existe um único caminho certo: metade dos perfis pesquisados pelo autor encontrou um papel importante e ficou nele por décadas, já a outra metade teve diferentes vidas em sequência.
3. Penhascos: eventos que encerram a vida como a conhecemos e nos obrigam a refazer a pergunta do título do seu livro. Um penhasco pode ser uma ruptura, o fim de um ciclo, uma transição, uma doença, a morte de alguém próximo ou, simplesmente, uma guinada do destino.
4. Neblina: depois do penhasco vem o período de desorientação e perda de identidade, que pode durar até alguns anos. A armadilha aqui é o salto prematuro só para sair do desconforto, e que pode levar justamente a outro penhasco.
5. Fogo interior: os anos mais criativos provavelmente ainda estão por vir. Nas biografias de Benjamin Franklin, por exemplo, 53% das páginas ainda restam quando ele chega aos 60 anos. Meryl Streep, um outro perfil estudado no livro, teve mais da metade de suas indicações ao Oscar depois dos 45 anos de idade.
6. E por fim, o mais instigante. Esqueça o legado: quase nenhum dos biografados se preocupava com como seria lembrado, mas sim como ainda podia viver, criar e fazer. A lógica do autor traz um chamado importante: as tais codificações expiram junto com cada um de nós, então devemos usá-las agora, com base e inspirados em uma jornada consistente de autoconhecimento.
O que me remete ao episódio com Chip Conley e sua entrevista com Molly Graham. Mas vale, aqui, um pouco mais de contexto e da sincronicidade destes dois conteúdos terem aparecido para mim.
Molly Graham é filha de Donald Graham, e neta de Katharine Graham, uma das personalidades estudadas por Jim Collins no livro, por sua liderança à frente do The Washington Post, após o suicídio de seu marido, que era acionista do jornal. Além disso, Molly assumiu recentemente o podcast no lugar de ninguém menos que Adam Grant, que deixou o projeto para se dedicar ao “The Curiosity Shop”, com Brené Brown.
Já Chip Conley é o criador e fundador da Modern Elder Academy – MEA, local onde fiz minha formação em liderança com Jerry Colonna, no deserto do Novo México, em março deste ano (e onde tive o insight de criar a metodologia WECORP, a partir do meu terceiro livro). Conley tem uma história de vida impressionante, e o conheci quando estive no SXSW em 2019, assisti à sua palestra e comprei seu livro “Wisdom @ Work – The making of a modern elder”, cujo foco também está nas novas possibilidades de vida e carreira que podem surgir com a maturidade (ele próprio foi contratado pelos fundadores do AirBnB aos 56 anos de idade, mas essa é uma outra história, contada por ele no livro…).
Voltando ao episódio do podcast de Molly e Conley, alguns pontos chamaram muito minha a atenção:
- As estações da ambição ao longo da vida e como nossas prioridades mudam com a maturidade.
- Todo mundo passa pela crise da meia-idade? E até que ponto ela precisa ser uma crise?
- O conceito de inteligência transicional (TQ), que é a sabedoria gerada a partir das transições da vida e carreira.
- A curiosidade como uma bússola: precisamos de talentos pessoais, sim, mas também do que Conley chama de “espaço vazio”. A disposição de fazer coisas novas, de aprender mais e de plantar novas sementes em terreno fértil. E ele faz, aqui, uma bela provocação: Daqui a 10 anos, o que você vai se arrepender de não ter aprendido ou começado hoje?
Por fim, um conceito muito bonito: o da urgência sagrada: Conley vive há 8 anos com câncer de próstata. Ele conta sobre o episódio quando seu oncologista lhe deu 22% de chance de viver mais dez anos para, no dia seguinte e depois de rodar seus dados em um outro modelo, voltar com 80% de chances. O que faz com que ele descreva a vida, o hoje, como um equilíbrio entre urgência sagrada e o desacelerar. O que, para mim e por tudo que vivi com minha própria saúde neste ano, é sinônimo da importância da consciência sobre nossas escolhas e renúncias.
O que escolho fazer hoje, aquilo que pode abrir novos caminhos, novos significados, novas avenidas de carreira e vida? E a que decido renunciar, como parte do exercício de minhas prioridades?
Artigo escrito e publicado por André Caldeira em seu Linkedin